1955, Cidade do México, Jogos Pan-Americanos. Setenta anos nos separam daquele instante, mas a memória do feito permanece vívida. Sei que alguns (talvez meia dúzia de almas leais) podem questionar a relevância desse passado, mas peço paciência e reverência para com Adhemar Ferreira da Silva, um gigante do esporte nacional.
Naquele dia, no Estádio Olímpico Universitário, Adhemar, aureolado pelo ouro olímpico de Helsinque (1952), era aclamado. Sua “Volta Olímpica”, gesto de gratidão ao público, já era lendária. Mas o que unia aquele brasileiro ao frio da Finlândia? Além da determinação e talento, Adhemar era um poliglota, dominando sete idiomas, e havia se dedicado a aprender finlandês, uma ferramenta, segundo ele, para “se defender” naquele país distante.
No salto triplo, prova de técnica e força, Adhemar era favorito. A sequência de saltos, com suas regras complexas, culminava na areia, onde a história seria escrita. A pressão sobre Hernandez, o cubano, era palpável. Adhemar, ídolo inspirador, elevou-se acima da pressão, conquistando o ouro e estabelecendo um novo recorde mundial: 16m56. Um marco que ecoa por sete décadas.
Helsinque, em 1952, e Melbourne, em 1956, foram palcos da dança de Adhemar, o “bailarino dos três passos”, como o chamava o “L’Équipe”. Em Melbourne, sentindo-se em casa, Adhemar combinava a preparação com a organização de saraus de samba na Vila Olímpica, traduzindo trechos das músicas para o finlandês.
Em Melbourne, um jovem islandês, Vilhjálmur Einarsson, surgiu das sombras, quebrando o recorde olímpico logo na primeira rodada. O estádio se silenciou, mas Adhemar manteve a calma. Na quarta tentativa, o salto perfeito surgiu, retomando o recorde e garantindo o ouro. A celebração, regada a café e boa música, era merecida.
O amadorismo da época impedia que Adhemar aceitasse uma casa oferecida por um jornal, temendo perder suas medalhas. A ironia de atletas pobres sustentando o espetáculo, enquanto dirigentes prosperavam, era gritante.
Sua despedida olímpica, em Roma 1960, foi marcada pela luta contra a tuberculose e o trabalho no filme “Orfeu do Carnaval”. No mesmo estádio onde Bikila assombrava o mundo na maratona, Adhemar tentava uma última exibição. Não conseguiu avançar às finais, mas sua despedida emocionou o público.
Lembrando de Helsinque, Adhemar trotou pela pista, sapatilhas na mão, lágrimas nos olhos, em sua última Volta Olímpica. Uma ovação de pé o acompanhou até o fim.
Tive a honra de conhecer Adhemar pessoalmente. Nossos encontros, regados a café e conversas, renderam histórias e conselhos valiosos. O último café, em 2000, antecedeu sua partida, em 2001. Aquele café que ficou por tomar ecoa como uma saudade.
E o Mundial Indoor de Nanquim? Essa história, com a reviravolta envolvendo Almir, fica para a próxima coluna.
Até lá!
Lauter Nogueira
