“Sem Despedidas” é o mais novo romance de Han Kang, sendo a primeira publicação da autora sul-coreana no Brasil após sua conquista do Nobel de Literatura em 2024. Lançado originalmente em 2021, o livro finalmente chega às prateleiras brasileiras, com tradução de Natália T.M. Okabayashi e publicação pela editora Todavia.
Em um vídeo que apresenta a obra, Han Kang menciona que “Sem Despedidas” pode ser interpretado como uma narrativa sobre “um amor profundo”. Também é posicionado como “uma luz acesa nos abismos da natureza humana” ou, ainda, “a crônica do massacre de Jeju”.
A trama gira em torno de Kyung-Ha, uma escritora que enfrenta traumas e pesadelos, e que recebe um pedido de socorro de sua amiga Inseon, que sofreu um acidente em casa. O pedido consiste em ir até a casa de Inseon, na ilha de Jeju, durante uma nevasca, para alimentar um pássaro.
A narrativa, fundamentada nas memórias da protagonista – que são, por natureza, fragmentadas – deixa propositalmente algumas lacunas. Assim, o leitor não tem acesso ao que ocorreu com Kyung-Ha antes de seus delírios solitários, embora possa vislumbrar parte de sua dor. “Algumas pessoas, ao se afastarem, levam consigo a faca mais afiada que possuem para ferir o ponto mais vulnerável do outro, e elas têm plena consciência de qual é, pois eram próximas”, alerta a autora logo no início da obra.
Han Kang, que ganhou destaque com “A Vegetariana”, aborda traumas coletivos da Coreia através de uma voz única. Com uma abordagem serena, ela guia o leitor com a frieza de quem carrega memórias que podem ser insuportáveis. Outras obras suas que chegaram ao Brasil, como “Atos Humanos” e “O Livro Branco”, exploram essa temática sob diferentes ângulos.
“Sem Despedidas” entrelaça sonhos e delírios para narrar a amizade entre as protagonistas e o massacre de Jeju, que ocorreu na década de 1940, antes da divisão da Coreia. Naquela época, uma represália do governo contra grupos de esquerda resultou na morte de pelo menos 30 mil habitantes da ilha, que hoje é um popular destino turístico na Coreia do Sul.
Através de jornais, documentos e relatos coletados pela mãe de Inseon, uma sobrevivente do massacre, o leitor é imerso no terror dos fuzilamentos realizados pelo exército coreano. Na mente delirante da protagonista, troncos de árvores imitam movimentos humanos; a travessia em meio à nevasca revela a fragilidade do corpo; e os testemunhos de sobreviventes deixam rastros impactantes do que foi tentado silenciar. “Não vá embora ainda”, sugere a amiga durante um de seus delírios.
