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A Infância Roubada: O Crescimento do Tráfico de Crianças Escravizadas no Brasil Imperial

Nas sombras do iminente fim do tráfico negreiro, o Brasil Imperial testemunhou uma escalada cruel: a exploração e escravização de crianças africanas. Uma mensagem de Joaquim Ribeiro de Brito, traficante, a seu agente em 1823, revela a macabra preferência por “moleques e moleconas”, sinalizando uma mudança no perfil das vítimas do comércio forçado. Com a pressão pelo fim do tráfico transatlântico, as elites brasileiras intensificaram a compra e venda de crianças, especialmente meninas, numa tentativa desesperada de perpetuar a mão de obra escrava.

Essa transformação comercial alterou profundamente a dinâmica do tráfico interno. Enquanto o número total de africanos escravizados se mantinha relativamente estável entre 1809 e 1818, um aumento significativo foi registrado entre 1819 e 1830, antes de declinar drasticamente após 1831. A razão? O acordo de 1826 entre Brasil e Inglaterra, que previa o fim do tráfico em três anos. Com a data limite se aproximando, os traficantes viam seus lucros ameaçados, intensificando a atividade para acumular o máximo possível antes de serem considerados piratas.

Dados da época revelam a dimensão desse aumento. Campos, no Rio de Janeiro, recebeu 35 mil escravizados entre 1809 e 1833, sendo mais de 27 mil entre 1822 e 1830. Minas Gerais, no mesmo período, importou 95 mil africanos, com cerca de 55 mil chegando entre 1823 e 1830.

Essas mudanças são detalhadas no artigo “tráfico interno de escravos a partir do Rio de Janeiro, 1809-1833”, de Manolo Florentino, Cacilda Machado e Carlos E. Valencia Villa, publicado na revista Afro-Ásia da UFBA. A análise foca nesse período devido ao registro da entrada e saída de pessoas pelo Rio de Janeiro, a partir de 1809, e a possibilidade de avaliar o impacto da repressão ao tráfico após 1833.

Outra característica marcante foi o aumento da participação de grandes empresas no tráfico interno, capazes de transportar até 30 indivíduos de uma só vez. Antes de 1820, pequenos traficantes, com até 4 escravizados por viagem, eram responsáveis por 81% do fluxo. Entre 1826 e 1830, essa porcentagem caiu para 66%. Cerca de 95% dessas viagens tinham como destino Minas Gerais, o interior do Rio de Janeiro, São Paulo e o Sul do país.

O estudo revela que o tráfico para a Região Sul cresceu mais de seis vezes entre 1809 e 1825, e a proporção de mulheres aumentou de 5% para 30%. Em Minas Gerais, a proporção de mulheres superou a de homens no quinquênio anterior a 1830. No entanto, a maioria desses africanos eram crianças, com os meninos sendo o grupo majoritário, exceto em Minas Gerais e nos portos do Sul, onde a proporção de meninos e meninas era semelhante. Esse desequilíbrio demográfico teve um impacto significativo nas relações sociais regionais.

A socialização dessas crianças, arrancadas de suas origens e forçadas à escravidão, é uma questão complexa. O artigo levanta três hipóteses: uma integração completa na cultura escravizada brasileira, sem laços com a África; uma educação moldada por africanos mais velhos, que recriaram a cultura africana no Brasil; ou um contato constante com a África, mantido através da circulação de informações. É possível que, nessa teia de influências, residam algumas das raízes da identidade brasileira. A história da menina de três anos que partiu do Rio de Janeiro para Minas Gerais em 1828, sem família, é um símbolo doloroso da infância roubada e da crueldade do sistema escravista.

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